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Música cubana

Eu lembro de toneladas de catarro. Era nojento e eu nem podia diferenciar o que era choro do resfriado. Nas últimas oito horas eu havia presenciado ele deixar de me amar enquanto ouvíamos um jazz cubano intelectualizado e elitizado num clube hipster qualquer, deixando toda a alegria da música cubana a desejar, deixando todo o desejo que ele teve por mim um dia a desejar. O catarro, muito presente nesse momento, não me deu trégua, e ele tentava me confortar enquanto eu tentava respirar.

Horas antes desse encontro sem graça ele apareceu chorando no meu quarto, sem saber o que fazer da vida. Estava deprimido. Eu sempre soube que não poderia ajudar. Comecei a chorar e a não saber o que eu queria da vida também. Eu queria dar um tapa na cara dele. Eu queria ter um par de algemas para prendê-lo na cama. Eu queria ter uma cama de cabeceira. Eu queria vomitar. Mas tudo que eu fiz foi dar um conselho racional e compreensivo. Tomamos nossa última decisão juntos e saímos para dançar.

O quinteto de jazz cubano e o catarro nos deram motivos para sairmos mais cedo sem sentir culpa. Na volta, caminhamos no escuro. Depois de dois anos, ele me fez lembrar o que era voltar tarde da noite de um encontro sem as mãos dadas. Quase na porta de casa me deu um abraço esquisito e atrapalhou meu caminhar tão inseguro. Coloquei minha camisola justa e preta com esperança, um pouco antes de me enfiar nos lençóis e começar a espirrar. Ele deitou ao meu lado, incomodado. Eu criei coragem pra falar.

_ Eu não sei o que fazer.

_ Como assim?

_ Não sei mais se eu posso te tocar.

Ele pegou minha mão embaixo do cobertor colocou na sua barriga, na parte que eu mais gostava de apertar.

_Dessa vez sua mão não está tão fria, olha só.

Eu consegui dormir sem chorar. Quando acordamos, ele saiu cedo pra comprar gengibre, me fez um chá. Cozinhou um café da manhã carinhoso, pra disfarçar a certeza no seu olhar. Quando eu perguntei se íamos nos ver de novo, ele voltou ao estado de desespero. Então tinha mesmo acabado. Ele ficou chorando e falando palavras irrelevantes sobre as minhas aparentemente centenas de virtudes, só pra me decepcionar.

_ Foda-se!

_Desculpa.

_Acabou. Você não está feliz agora?

Ele me olhou como se eu fosse uma bruxa por ter feito essa pergunta, tomando para si a minha dor de vê-lo me abandonar.

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Conto sobre a vida

Quando eu era adolescente, uns 15 anos, eu lembro de ficar assistindo MTV aberta em Bauru. MTV não era aberta em Andradina. Pode parecer pequeno para quem cresceu ouvindo música alternativa e vendo aquelas propagandas conceituais, mas para mim, era libertador, era tão adequado. Daí, além das músicas eu ficava babando nos VJs, queria ser amiga deles. Meus amigos do colégio falavam que eu me vestia igual eles, mas eu nem achava que era zoeira. Achava que era legal. Nessa época já fazia mais de sete anos que eu tinha decidido ser jornalista, ser escritora, e achava que quem sabe um dia eu ia fazer parte desse mundo. Mas a vida, sendo vida, me fez seguir o caminho da engenharia ambiental, e por fim, num ato mais que certeiro, me mostrou o caminho do ativismo. Outro dia, anos atrás, lembro de encontrar o Cazé na Pedalada Pelada.

Hoje, eu conheci uma mulher que admirava mais que todos os outros VJs. Eu achava ela mais bonita, achava mais inteligente, e achava que tinha melhor gosto musical. Depois descobri que ela era filha de cineasta, que ela mesma era cineasta. Hoje estávamos na mesma sala conversando sobre a Amazônia, sobre o mundo que queremos, e ela até me perguntou: me explica melhor o que você faz, que interessante. Eu queria tanto perguntar para ela, na verdade, tudo o que ela fez e faz. Queria contar que eu tinha feito já um curso de roteiro de cinema e adoraria escrever um roteiro como ela, queria dizer que meu pai não era cineasta mas era dono de locadora no interior de São Paulo.

Queria dizer: você nem sabe como assistir os seus programas da MTV significaram amadurecimento pra essa menina do interior. Você nem sabe o que significa para mim estar sentada aqui do seu lado nessa sala de reunião. Você não sabe o que significa para mim, depois de tanto ouvir você, ver você me ouvindo falar.

Tenha paciência com a sua vida. Ela vai te surpreender quase todos os dias.

Licença Poética

Era o dia mais quente que tenho memória na vida adulta. Antes do Sol se por, e enquanto os garçons dos bares do bairro de Getsemani deslocavam as mesas e cadeiras de dentro dos empreendimentos abafados, ocupando as calçadas quentes e animadas da frente da praça da Igreja Trinidad, eu me sentei serena em um dos bancos públicos. Do lado esquerdo, um carrinho vendendo empanadas fritas me fez imaginar como alguém podiar fritar qualquer coisa no verão de Cartagena. Do lado direito, mais turistas dividiam os bancos com jeito de quem se queimou e se divertiu na praia. Na minha frente, meia dúzia de pré adolescentes jogavam futebol sorridentes, bem enquadrados ao lado de três estátuas de bronze que jogavam as mãos pra cima como se estivessem torcendo para um dos times. As famílias que não estavam de férias chegavam bem arrumadas por detrás da partida de futebol, acessando a porta escancarada da igreja. Era a missa de domingo. Olhei ao redor da praça para ver se as mesas estavam prontas, ansiosa por quando eu poderia sentar e pedir meu mojito.

“Are you waiting for someone?” Um rapaz se dirigiu a mim, parecia ansioso. Ao ouvir minha negativa, justificou dizendo que me confundiu com uma pessoa que tinha conhecido no dia anterior. Desconfiada e cheia de convicção como sou, achei-o esquisito, senti um desconforto e a serenidade virou rapidamente um grande incômodo. Ao perceber que eu preferia falar espanhol a inglês, continou puxando assunto, mesmo que eu estivesse olhando precisamente para o horizonte, exatamente do lado oposto a seu tagarelar. Então ele se sentou ao meu lado e continuou falando muito, embora eu não tivesse mudado nenhuma das minhas reações.

Quando finalmente nos deitamos juntos pela primeira vez, sob a luz de um abajur de lâmpadas azuis, ele não tinha camisinha,nem eu. “Melhor não”, eu disse. “Shhhh” e ele entrou em mim. Demorou um pouco para eu sentir o prazer de ter dentro de mim o que eu tanto queria, claro que eu o queria; se eu o queria tanto, eu devia sentir prazer. Então eu senti. Ele foi a última pessoa capaz de me fazer sentir prazer desde essa noite. Depois desse “Shhh”, eu só fiz o querer, só fiz me pertencer a ele, cada vez mais. E nunca assumi, nem quando ele mesmo me perguntou, algo de errado nessa cena, cuja memória eu guardei pra sempre. Não importava, porque eu o queria tanto, só podia ser isso.

 Enquanto ele se esforçava ao meu lado, eu tentava entender o que eu tinha feito para aquela pessoa estar sentada ali tão próxima, contra a minha vontade – seria minha roupa indecente pra aguentar a temperatura, seria aquela cara alegre de esperar o mojito, seria ter a ousadia de mais uma vez viajar por aí sozinha?

Depois de tanto falar, ele decidiu que precisava da minha atenção, começou a a fazer perguntas, no que eu achei mais educado pelo menos voltar a olhar para frente e responder. Eu era do Brasil, sim estava sozinha, sim a cidade era linda. Eu não perguntei mas ele me contou que ia morar na Alemanha.

Taí, eu gostei muito de Berlim, pensei que poderia ser legal entrar nesse assunto, falei minha impressão do país, da cidade, do quanto seria fácil para mim mudar-me para um lugar tão charmoso como aquela capital cheia de histórias, histórias de terror, de muros, de liberdade. Ele me cortou, não parecia estar tão interessado, preferia ele mesmo falar.

“Você precisa falar tudo que passa na sua cabeça?”Eu chorava calada e respondia “Você me pediu para te dizer tudo, para não guardar nada, que não queria ter que saber meses depois que tinha feito algo e me magoado.” Ele olhava e fazia uma cara de preguiça por estar me ouvindo, por estar numa situação desconfortável.  “Eu não sou como você, não consigo falar nada. Não consigo ser assim.”

“Donde estás hospedada?” Ele me perguntou onde eu estava hospedada. Será que ele acha normal perguntar isso para alguém?  Alguém a quem ele nem sequer pediu licença para sentar ao lado? Me senti antipática, brava, amargurada. Por acaso eu não queria fazer amigos? Por acaso eu me achava superior? Como é que eu, sozinha, podia negar atenção a alguém querendo conversar?

A primeira vez que fiquei longe da cidade ele sentiu a solidão, a saudade, e me contou ter procurado outras meninas. Queria fazer amizade. Ele me contou sem eu perguntar porque isso era normal. Como eu poderia não achar normal, como eu poderia desconfiar do amor de alguém que dizia não poder viver sem mim, que dizia não servir para relacionamentos abertos, que só queria estar comigo. Eu precisava assumir que era neurótica e ciumenta. A relação dele com outras mulheres forçou-me a ignorar todas as minhas intuições, até mesmo aquelas que se provaram verdade. Subestimei a minha inteligência. Se eu não fosse a namorada neurótica, o que eu era então? Uma babaca, uma ingênua, uma cega? Essas outras mulheres todas me gritaram “Shhh” até que eu enxerguei em mim uma mulher carente, quase louca, que não tinha em si a serenidade de amar.

 “Your hotel.”Ele insistiu em inglês, percebendo a minha demora em responder. Dessa vez eu olhei bem nos olhos dele e disse “Yo no quiero hablar.” Chegou o silêncio e ele ficou lá sentado, sem reação. Ainda continuou lá calado por um bom tempo.

No fundo, pode até ser que fosse fácil saber que um dia ia acabar. Eu, por outro lado, confiava em nós dois, aprendendo, dispostos. De repente, ele parou de me ver em mim, me acusou de não ter identidade, de viver minha vida para agradá-lo. Ele parou de me ver, preferiu não participar da minha identidade, me acusou porque não estava lá, eu deixei isso bem claro. Ele entendeu, ficou perdido, sem saber como reagir. Eu não aceitei essa história repetida, padronizada que ele tentava me contar. Por um tempo, ele não soube que outra história contar, mas a mudez durou pouco: se eu tinha identidade, se eu era feliz, se eu vivia minha vida, então o infeliz poderia ser ele. Era ele agora quem não sabia o que queria, não sabia o que fazer, estava tudo ruim, não podia mais se comprometer com nada, tudo o fazia sentir-se mal, nada seria capaz de fazê-lo feliz. O fim foi cruel, mas aceitei de bom grado e sumi. Doeu, ainda dói. Eu não quero mais falar, você talvez nunca quis ter escutado. 

Pensei em ir embora durante o silêncio, resisti às minhas próprias bobagens e fiquei. Finalmente ele se levantou, se afastou, foi pra longe com um semblante que deixava claro para todo mundo que ele acabava de ter se encontrado com a mulher mais cruel do mundo. Levantei quando me deu vontade, sentei numa mesa da calçada, pedi um mojito. Olhei o menino de longe e achei que eu continuava feliz. Pedi uma pizza para acompanhar. Comi a pizza inteira- não tinha ninguém dessa vez para dizer que eu não aguentava comer uma pizza sozinha.

Locadora Vende Tudo

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Esse texto é para o meu pai, que talvez não saiba o quanto da minha personalidade é  tudo sua culpa.

 

Essa história começa na minha volta para casa numa tarde fria de terça feira. Eram 18:20 quando eu me deparei com uma loja de discos desconhecida. Uma loja cheia de discos de vinil, prontos para me distrair durante horas.  Mas eu precisei relativamente de pouco tempo para gastar meu dinheiro com três álbuns, e ainda descobrir que depois do filme “Searching for Sugar Man” toda a obra de rock da lenda Sul Africana do cantor Rodriguez está disponível nas lojas mais antenadas da cidade (e essa frase não está sobrando nesse parágrafo, ela merece destaque).  Read the rest of this entry

Para quando o carnaval chegar (ou Carta à Fernandinha)

Minha cara amiga. Estou aqui tentando calcular quanto tempo demorou desde o dia da idéia de escrever para você até que eu finalmente o fizesse, felizmente em tempo.

Mal eu percebi a virada de mais um ano e você já estava num avião rumo à Ásia. Matando sua velha amiga de orgulho da sua coragem, da sua atitude e desapego. Parênteses. Um dia, uma mulher cuja inteligência era notável em apenas meia hora de almoço me contou que sustentabilidade era desapego. Lembrei dessa frase quando falei com você antes de partir. Fecha parênteses. E enquanto você ia, tanta coisa acontecia. Na minha cabeça, no Brasil, no mundo. Ah, os tolos dizem que o ano só começa depois do carnaval.

Enquanto você questionava sua própria viagem, eu questionava minha mudança. Você nem imagina quanta força eu precisei para assumir meus objetivos de vida.  Realizar sonhos não é pra quem tem sorte, mas sim pra quem tem força.

Mas queria mesmo era aproveitar essa distancia para falar da minha decepção sobre os primeiros e últimos acontecimentos desse lado dos trópicos. Começando pelo calor infernal.

Eu juro, te convenceria pela primeira vez sobre o tal aquecimento global. Há 72 anos, o relógio digital que voltou a funcionar há pouco tempo nas avenidas da cidade, não registravam temperaturas tão altas. Eu chamaria até mesmo de um grande conflito cultural, pois foi possível cantar “São Paulo, 40 graus, cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”.  Tanto calor. E o improvável aconteceu, eu parei de usar casaco.

E parei de usar capacete enquanto pedalava durante uma semana. Não me critique, pois usar capacete não é lei. E você não ia gostar nada de ver a situação do meu cabelo, agora cor de fogo pra combinar com o verão paulistano, grudado na testa de tanto suor.

Para ser franca, a franja grudada na testa é uma grande futilidade para desviar o assunto principal dessa carta. O que vou contar parece óbvio. Talvez seja apenas a minha sensibilidade à flor da pele.

Uma rebelião num presídio do Maranhão arrepiou o pais. Não consegui nem ver o vídeo inteiro, tamanha a crueldade. Mais cruel foi a Roseana Sarney, fazendo jus ao clã, ignorando completamente o assunto, tentando reverter a situação a seu favor.

As manifestações viraram sinônimo de violência. Forjaram uma foto de uma suposta líder dos Black blocs em uma revista pouco confiável, porém provavelmente, uma das mídias impressas mais lidas deste pais. Depois disso, soltaram um rojão que matou um cinegrafista. Morreu um cinegrafista durante uma manifestação. Agora, estão acusando partidos políticos de envolvimento nos protestos, e estão tentando aprovar uma Lei que aprova prisão de 30 anos para manifestantes que praticarem atos terroristas. Do pouco que eu entendo das manifestações, se vinagre é arma, não imagino como provar que andar com um cartaz  escancarando a insatisfação com a Copa não seja terrorismo. Afinal,tudo se resume ao futebol. Você lembra daquele cara que namorou a Angélica antes de ela casar com o Luciano Huck? Ele apresenta um programa de notícias no SBT, e eu liguei a TV numa manhã e o ouvi dizendo sobre os bilhões de reais gastos pelo governo para adquirir  equipamentos de alta tecnologia contra protestos durante a Copa. A FIFA foi clara : “Com ou sem manifestação, a bola não pode parar de rolar…”. Tenho medo do uso político que será feito de quaisquer das nossas leis a partir do tal evento de abertura da Copa 2014, bem que um dia você anunciou este campeonato descontente. Desculpe, mas eu não sei quem é o líder do campeonato no Brasileirão , talvez eu deva sair dessa minha bolha e acompanhar melhor o que acontece no mundo.

Se bem que as notícias dos gringos também não são assim muito animadoras. Morreu um menino de 12 anos nos Estados Unidos. Ele morreu asfixiado. Ele se asfixiou porque se enforcou. Ele se enforcou porque sofria bullying. Sofria bullying porque gostava de um desenho de pôneis de cor pastel, e meninos não deveriam gostar de pôneis, especialmente aqueles cor de rosa. Meninos também não choram. Mas ele chorou e fez outras pessoas chorarem. Tão bonitinho, branquinho e loirinho, comoveu o público.

Outro menino que chorou mas não comoveu tanta gente assim, foi um suposto “marginalzinho”, preso sem roupa por um cadeado de bicicleta num poste do Rio. Espancado por jovens consideravelmente muito maiores que eles, ainda assim sobreviveu. Sobreviveu para ouvir uma jornalista gritar em alto e bom som, representando o pensamento da grande maioria da população, que ele merecia ter apanhado mesmo. Afinal, ele não é fruto de uma sociedade violenta. Não, não, pelo contrario. Ele é a culpa da nossa sociedade ser  violenta, mas é claro.

Marginal é marginal e não merece respeito. Por isso, quando o Haddad resolveu iniciar a “Operação Braços Abertos” na Cracolândia, com o objetivo de reintegrar socialmente dependentes químicos, a chefe da Policia Militar  mandou bala. Era preciso para provar quem é que mandava. Um dia, converse com algum assistente social atuante neste casos, e entenda porque uma bala de borracha é capaz de arruinar o tempo e o trabalho de uma vida inteira.

Foi mais ou menos o que o FBI fez com o tal Lobo de Wall Street, que, veja só, também vivia num lugar que poderia muito bem ser chamado de Cracolândia. Caso a cracolândia também fosse povoada pelos puteiros da Rua Augusta. Foi muita polêmica, pode se imaginar. Acusaram o Francis Ford Coppola de ostentar e valorizar o estilo de vida de um corrupto mau caráter, que roubou muito dinheiro de milionários americanos que nunca foram ressarcidos. Oh, dó. Só um doente mental pode sonhar em ter uma vida daquelas.

Sem contar que por pouco, muito pouco, não elegem o Bolsonaro para Presidente da Comissão do Direitos Humanos. O Bolsonaro lembra? Aquele preconceituoso que não respeita nenhum ser humano além dos seus? Mas isso foi uma jogada do PP para que o PT fosse obrigado a assumir esta Comissão. Ou seja, interesses maiores do que pode sonhar nossa vã filosofia.

Pois é, o que há de tão errado no mundo?

Mas bem quando eu pensava que estávamos todos  doentes, você me mostra esse vídeo brincando no meio do Laos, com crianças felizes, cuja maior malandragem de que são capazes é jogar alga no seu biquini. Bem quando o Sol estava incomodando no caminho pro escritório, um velho amigo nosso grita meu nome inesperadamente no meio da rua só pra falar Oi! Bem quando até as pessoas mais inesperadas partem meu coração, chega um amigo disposto a tomar um porre e dançar e pular em minha companhia durante a noite toda. Bem quando o frio na barriga acusa o medo de um futuro incerto, a simples mudança de atalho faz o Sol parar de queimar, e deixa brisa boa em seu lugar. Bem quando eu penso: cadê a minha amiga para eu chorar, reclamar, espernear e viajar comigo pro Uruguai ? Vem a sua mensagem me avisando que vamos nos ver mesmo antes do carnaval chegar.

Não é difícil apontar tudo que está errado com a humanidade. Mas esse não é o objetivo da nossa passagem neste lugar, é justamente o contrário. Por isso, volta logo, pois nossa amizade faz parte de tudo que há de melhor neste planeta.

Alta Bestialidade: Top 5 razões para viver e não viver neste mundo

Era um evento profissional, e um velhinho discursando sobre a importância da sustentabilidade. Quase o mesmo discurso de sempre, mas ele era fofo. Confesso que estava desinteressada o suficiente a ponto de alternar minha reflexão no tema com imagens do almoço, que devia acontecer em poucos minutos. Mas o velhinho conseguiu me acordar com uma fala mais ou menos assim: “Esse é o mundo em que vivemos, não se pode fazer nada…”. Eu não lembro da frase inteira, porque eu faço isso às vezes. Bastam duas ou três palavras pra  eu começar a refletir num universo paralelo. É notável, porque já recebi esse feedback do meu pai, que me vê tão pouco. Mas é assim, entrando em universos paralelos, com música, poesia, e piadas muito ruins (muito ruins mesmo), e que atrapalham todo o fio da meada, é assim que me chegam algumas idéias pra escrever aqui.

Tão logo ouvi essas palavras, já me veio o Moraes Moreira cantando feliz.

Eu queria responder pro velhinho (e pros Novos Baianos):

–       Não me leve a mal, eu tenho alguns bons motivos pra não viver neste mundo, ou pelo menos não viver aceitando esse mundo do jeito como ele é.  Eu acho que a gente é  melhor que isso, não? É, eu sei. É complexo. Vou escrever pra tentar explicar.

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…pressenti,que algo havia mudado. Em mim…

Não me surpreenderia que algum leitor:

  • Desse esse blog por finalizado;
  • Achasse que minha esperançosa busca pela sustentabilidade tenha se apagado diante dos acontecimentos dos últimos meses;
  • Pensasse que todo esse discurso foi uma farsa momentânea;
  • Acreditasse que as inspirações musicais e literárias acabaram para sempre; ou que algum mais otimista
  • Celebrasse minha paz interna e externa, após ter delatado meu feliz encontro com a mobilização no último post….

Nada disso ou qualquer variação desses pensamentos seria sem sentido, depois de quase um ano sem escrever ou “cantar” nenhuma canção . Aqui desse lado, nunca antes tantas melodias sustentáveis latejaram em minha mente, ainda que, não estivessem preparadas para habitar este espaço.

Alguns fatos que espero explicarem-se por si só : Um novo emprego, o abandono de alguns projetos, o ingresso em novos projetos, um curso de criação literária, manifestações, um sobrinho muito gostoso, meu maior ato de feminismo, conflitos em superação, uma nova pós graduação, a invenção de um novo lar, um aniversário que me trouxe muito perto dos 30 anos, um atropelamento de bike, um quase atropelamento a pé; ou, resumindo, um dos mais intensos momentos de transição que já tive somado ao terrível e imutável fato de que o dia tem apenas 24 horas (numa visão otimista de mundo, o período que abrange de sexta a domingo poderia ser gentilmente composto por pelo menos mais 12 horas).

Para não deixar dúvidas, foi um excelente momento, que me dá uma impressão mais madura e tranqüila desta que vos escreve. Escolher com qual temática começar, entretanto, me deixou um pouco ansiosa. Foram tantos temas literalmente borbulhando nessa cabecinha, que seria quase injusto descartá-los, bem como seria #chatiante vomitar pelo menos uns 5 textos de muita reflexão cruzada. Assim, optei por fazer uma playlist compacta nesta re-inauguração das minhas idéias, mais loucas e mais livres:

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